Quebranto

por mva
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Apr 15

João Cabral: deserto sem sombra e o negro solar.

“A Palo-Seco” (o ‘cante a palo seco é um canto cigano -‘flamenco’- não acompanhado pela guitarra). O elogio da luz solar em sua maior crueza, como condição de verdade e de autarcia, é o ponto central do poema e nos remete desde já a uma ‘poética do entendimento’ (da ‘Aufklärung’, em alemão, “iluminação”, mas também dissolução das trevas da não-Razão pela luz do entendimento), em sua oposição à noturnidade da poética romântica”

IN: Bento Prado Jr. analisa a metafísica da luz solar em João Cabral de Melo Neto

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“1.1.

Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino.

1.2.

O cante a palo seco

é o cante mais só:

é cantar num deserto

devassado de sol;

é o mesmo que cantar

num deserto sem sombra

em que a voz só dispõe

do que ela mesma ponha.

1.3.

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem de abrir o silêncio

com sua chama nua.”

A palo seco, Quaderna. In: Poesias Completas,1975, p.160

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 2


Se o negro quer dizer noturno

o negro da cabra é solar.

Não é o da cabra o negro noite.

É o negro de sol. Luminar.


Será o negro do queimado

mais que o negro da escuridão.

Negra é do sol que acumulou.

É o negro mais bem do carvão.”


Poema(s) da Cabra, “João Cabral de Melo Neto - Obra completa”, Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 254. IN: Releituras