João Cabral: deserto sem sombra e o negro solar.
“A Palo-Seco” (o ‘cante a palo seco é um canto cigano -‘flamenco’- não acompanhado pela guitarra). O elogio da luz solar em sua maior crueza, como condição de verdade e de autarcia, é o ponto central do poema e nos remete desde já a uma ‘poética do entendimento’ (da ‘Aufklärung’, em alemão, “iluminação”, mas também dissolução das trevas da não-Razão pela luz do entendimento), em sua oposição à noturnidade da poética romântica”
IN: Bento Prado Jr. analisa a metafísica da luz solar em João Cabral de Melo Neto
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“1.1.
Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.
1.2.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
1.3.
O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;
que o cante a palo seco
sem tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua.”
A palo seco, Quaderna. In: Poesias Completas,1975, p.160
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“ 2
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.
Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.”
Poema(s) da Cabra, “João Cabral de Melo Neto - Obra completa”, Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 254. IN: Releituras