Quebranto

por mva
b
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Nov 19
“O homem acompanhava o enterro do pai e um amigo de seu irmão inclinou-se ao lado do caixão e disse:
— Vai, meu velho. Vai e não tenta voltar.
— Ele não pode falar assim — disse o homem. Mas o irmão não lhe deu resposta. E ele insistiu:
— Seu amigo não pode falar desse modo ao nosso pai que já está morto.
— Deixe-o — disse o irmão, — Ele pensa que assim o está ajudando. E o amigo do irmão continuou seguindo o enterro, inclinando-se ao lado do caixão e dizendo:
— Vai, meu velho. Falta só um pouco mais. Vai e não tenta voltar. O homem ouvia aquilo e não concordava. E depois, em casa, comentou com sua mulher:
— Eu e meu irmão passamos muito tempo um longe do outro. Eu preciso procurá-lo mais. E a partir desse dia o homem começou a se preocupar com o irmão. Começou a sair à sua procura e, às vezes, a tentar mudá-lo. Mas não conseguia, e quando voltava para casa sua mulher o via chegando e perguntava:
— Como está ele?— Ele continua sem me ouvir — dizia o homem. — Continua quase sem me dar atenção.
Na maioria das vezes o homem ia encontrá-lo no alto de um morro olhando para os lugares por onde já havia andado à procura de pedras e de ouro. Olhando em direção a um rio onde por muitos dias raspou o fundo e onde o homem, depois de observálo por algum tempo, havia perguntado:
— Para que todo este esforço? Outros já procuraram por aqui e desistiram. Mas o irmão não havia dado resposta. Havia continuado seu trabalho, raspando o fundo de manhã à noite. Lutando um dia inteiro contra a correnteza para amarrar em cima da água duas tábuas e um feixe de paus.
— Isto não vai levá-lo a nada — dizia o homem. Mas ele não respondia. Continuava de cima da sua espécie de plataforma puxando a enxada que vinha do fundo cheia de lama e de pedras. E ele examinava as pedras, ciscando uma por uma a procura da riqueza.
— Para que tudo isto? — dizia o homem.
— Você examina mil vezes esta bacia cheia de lama e mil vezes não encontra nada. Por que não desiste? O irmão permanecia calado e o homem reparava em seus dedos feridos e em sua roupa estragada. E na comida de que se servia à noite.
— Esta comida é a mesma de que se serviu pela manhã. Não vê que tudo isto é uma perda de tempo?
E quando voltava para casa, dizia à mulher:
— Meu irmão deita tarde e antes do sol sair já está no meio do rio em cima das duas tábuas. E não vê que é tudo uma perda de tempo. Um dia ele perguntou ao irmão:
— Por que você raspa o fundo somente neste ponto do rio? E o irmão disse:
— Estou seguindo uns sinais.
— Que sinais? — perguntou o homem.
— Uns sinais que eu vejo.
— Sinais que só você vê? Estes sinais não existem.
O irmão o olhou e respondeu:
— Eu os estou vendo, e não é isto que me interessa?
E voltou a trabalhar no mesmo ponto. O homem se referiu, então, à história que contavam do garimpeiro que encontrou um prato de diamantes e mesmo depois disso continuou procurando mais riquezas.
— Um prato de diamantes é uma riqueza bastante para você?
— Não sei — respondeu o irmão. — Não encontrei ainda.
— Se você quer tanto o dinheiro que pode vir das pedras — disse o homem —, por que não trabalha com aqueles que usam as dragas lá embaixo? Todos os dias eles tiram um pouco e dividem entre si. Pelo menos um pouco de dinheiro eles sempre têm. O irmão falou que não era aquele dinheiro que ele procurava. E o homem ficou vendo-o no seu trabalho e sentindo que a barreira que havia entre eles era alta e difícil de transpor.
— Por que não vem trabalhar no que eu trabalho? — perguntou um dia. O irmão não lhe deu resposta, e continuou na sua procura. E o homem voltou para casa e disse à mulher:
— Eu não o entendo.”
Oswaldo França Júnior: Os dois irmãos. Cap I.